terça-feira, fevereiro 03, 2009

Tão Nova e Tão Velha

Sinto-me cansada e exausta, como se décadas de trabalho árduo me tivessem passado pelo corpo.
Sinto o peso, dos poucos anos que tenho, nos ombros, enquanto vejo a minha postura a desleixar-se.
Revolto-me com a juventude, à qual pertenço, pela falta de alguns valores e ideais.
Somos tão novos mas estamos tão "velhos".
Cansados de um futuro incerto e na maioria das vezes nada promissor, encontramo-nos também desanimados e preguiçosos.
A juventude perdeu a força de vontade e também a capacidade de sonhar.
E agora, talvez caindo no erro de parecer demasiado velha, atrevo-me a dizer que a juventude já não é o que era.

"The youth is starting to change. Are you starting to change? Are you?"
The Youth MGMT

terça-feira, dezembro 09, 2008

III


Hoje bates-me, 
arranhas-me,
ofendes-me,
ameaças-me, 
empurras-me,
esmurras-me 
e beliscas-me.

Magoas-me.

Mas só por hoje eu deixo
Porque te fiz sofrer.
Por isso
Bate-me.
Arranha-me.
Ofende-me.
Ameaça-me.
Empurra-me.
Esmurra-me.
E belisca-me.

Mas perdoa-me.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

There She Goes

Philippe saiu do seu táxi e dirigiu-se à porta rapidamente. O interior do edifício estava diferente. Em vez de frio e impessoal como sempre, com uma decoração minimalista e com imenso espaço vazio, encontrava-se acolhedor e bastante iluminado. Era das decorações de Natal. Philippe teve dificuldade mas depressa reconheceu aquele edifício como sendo o mesmo onde se instalara a sua empresa à quatro anos atrás e onde este trabalhava à dois anos e meio.
Chamou o elevador e esperou. Olhou para o relógio de pulso e confirmou que estava ligeiramente atrasado mas não se importou.
O elevador chegou.
Entrou e carregou para o nono andar.
Enquanto o elevador subia, Philippe ajeitou a sua gravata e pensou que talvez não tivesse sido má ideia ter-se penteado. Também pensou se a sua colega Bijou se encontraria ali nessa noite. Na verdade, ele não parava de pensar noutra coisa desde que saíra de casa nessa noite. Ansiava profundamente que ela lá estivesse.
Ainda o elevador não tinha parado e já Philippe ouvia a música. Para variar nas festas da empresa, a música raramente era alusiva à época. Neste momento estava a terminar uma música dos New Order.
Saiu do elevador e logo encontrou alguns colegas que o cumprimentaram e iniciaram logo uma conversa sobre, claro está, trabalho.
Mal se viu livre deles, Philippe olhou para a sala pela primeira vez. Estava magnífica. Lembrava uma espécie de palácio feito de gelo.

“Bijou!”- Lembrou-se rapidamente. Onde estaria ela?

Dando uma rápida volta à sala e cumprimentando mais uma série de outros colegas, Philippe tentou descobrir se Bijou estaria na festa, e se sim, onde!?

De repente começam os primeiros acordes da música dos LA’s, a There She Goes, e ao mesmo tempo, Philippe depara-se com uma “visão” do outro lado da sala, junto do bar.

Lá estava Bijou, sempre colorida para quebrar com a monotonia dos fatos escuros que os executivos usam até mesmo para festas.

Percorrendo rapidamente a sala, Philippe deixa-se levar pelo entusiasmo enquanto empurra levemente as pessoas que lhe barram o caminho.

Lá está Bijou a uns escassos 2 metros da sua pessoa. Ela encontra-se de costas, encostada ao bar enquanto brinca com a sua bebida.

“Vou ver se a assusto!”- Pensa Philippe enquanto se aproxima lentamente dela.

Chegando mesmo atrás dela, decide tapar-lhe os olhos sussurrando-lhe aos ouvidos um animado mas suave:

-Adivinha quem é...?

Ela rapidamente larga a sua bebida e, ainda com os olhos tapados pela mão dele, vira-se ligeiramente, sorrindo.

Philippe olha para ela, como se fosse pela primeira vez. Está apaixonado por ela desde que a viu no seu primeiro dia de emprego quando ela o ajudou a levar as suas coisas pelas escadas acima, uma vez que o elevador estava avariado.

Desde aí tornarem grandes amigos, mas porque trabalham em sectores diferentes na mesma empresa, não se encontram tantas vezes como gostariam.

E ali está ela, de olhos tapados, a sorrir como sempre. Sem pensar duas vezes Philippe beija-a, sem nunca retirar a sua mão. Arrepende-se logo de seguida: “Ela vai saber que fui eu, não há como escapar!”

-Philippe?

“Mas como…?”- Philippe está assustado e confuso. Não sabe o que fazer.

Retira então as mãos do rosto dela, envergonhado e pedindo mil desculpa. Nunca a olhando nos olhos e sem a deixar sequer falar.

- Desculpa mesmo Bijou…. Mas já agora, como sabias que era eu?

- Não sabia. Mas esperava que fosses tu. Mas visto que ficaste tão envergonhado…

E sai. Assim sem mais nem menos, pega na sua mala e dirige-se na direcção do elevador.

Philippe não sabe mesmo o que fazer. Está estupefacto a olhar para ela e passam mil e uma questões pela sua mente naquele momento. Decide finalmente segui-la.

Bijou encontra-se em frente ao elevador à espera que este chegue, enquanto Philippe encontra-se, a uns quatro metros dela, completamente paralisado.

“Ela vai-me deixar de falar…Não conseguirei suportar isto!”

De repente, as portas do elevador abrem-se. Bijou entra e segurando a porta diz:

-Vens?

terça-feira, novembro 18, 2008

O Regresso da Dor de Pensar

Que se enganem aqueles que pensam que, só porque já a sentiram, não volta a doer.
Doí e por vezes até doí mais.
Porque é mais perto e porque nos faz mais falta.
Ou talvez só porque faz mais falta a mais gente que gostamos.
Porque custa sofrer e porque custa muito mais ver sofrer.

domingo, novembro 09, 2008

II

Estou dormente,
estou partida,
estou cansada
e estou dorida.

Tenho sono,
quero dormir.
Tenho dor
e quero sentir.

Deixa-me ir.
Não quero voltar.
Quero partir
para me encontrar.

Não sei quem sou,
não me encontro.
Perdi-me um dia,
um dia sem retorno.

quarta-feira, novembro 05, 2008

I

Descalça percorro a casa
sentindo as texturas do caminho.
O chão do quarto está frio
e arrepio-me.
Oiço-te a tocar,
sorrio e viro-me.
Afinal é só o rádio.

Ainda sinto o teu perfume,
forte e intenso como tudo em ti.
Deixaste tudo desarrumado.
Até a cama está por fazer.
Sinto loucamente a tua falta,
preciso desesperadamente de ti.
Mas sei que logo voltas,
para mim...

quarta-feira, outubro 29, 2008

A Dor de Pensar

A Morte é inevitável.
Chega mais cedo ou mais tarde, mas chega e não há como escapar. 
Toca a todos.
Enquanto somos novos, muitos de nós têm o privilégio de nunca passar sequer perto dela.
Eu era uma dessas pessoas. 
Não sei hei de agradecer pelo facto de já não o ser ou se hei de sentir pena de mim mesma por já não ter aquela "inocência". Só sei que passei a conhecê-la pelo meu próprio pé.
Não fui sequer obrigada pela minha consciência.
"Ela precisa de alguém ao pé dela neste momento."-pensei.
E fui.
Não fazia ideia do que me esperava. Nunca tinha ido a nenhum velório.
Senti um nó no estômago assim que vi o edifício. Medo? Mas de quê? Do que ia ver...ou do que ia sentir?
Entrei no edifício mas não consegui passar para a dita sala. Paralisei.
Paralisei assim que olhei para a cara dela. Tinha olhos vermelhos de quem passara o dia a chorar e olhava directamente para mim. Mas não me via. Ela não tinha reacção.
Ali estava algo que nunca tinha experimentado e olhando mais uma v
ez para ela, ali também estava algo que eu, seguramente, não queria experimentar.
Cumprimentei-a e agarrando-a num ombro disse: "-Se precisares de alguma coisa, seja o que for..."
Não tinha pensado no que iria dizer quando lá chegasse e depois de vê-la sei que tudo o que teria preparado seria estúpido e insignificante.
E ficámos ali na entrada, a olhar para lado nenhum, num  absoluto silêncio.
De repente chega um casal que a cumprimenta e lhe sussurrou palavras de conforto. De seguida dirigiram-se para as irmãs dela e é ali que vejo outras caras, caras essas com a exacta expressão que ela tinha quando a vi pela primeira vez nessa noite.
E foi ali que saí.
Rebentei em lágrimas e sem saber o porquê.
Não gosto que me vejam chorar mas nem é por nenhuma razão em especial, mas não me deixei ir a baixo em frente dela, ela que realmente tinha sofrido uma perda naquele dia.
Quase cinco dias depois, não sei explicar aquilo.
Mas sinto que cresci.